ETFs da América Latina superaram discretamente o S&P 500 - veja por quê
Uma análise de Peru, Colômbia, Brasil e México e do que a concentração significa para investidores.
O que a diferença de desempenho realmente mostra
Os ETFs de ações da América Latina vêm superando discretamente o S&P 500 (VOO) nos últimos dois anos e meio. Desde agosto de 2023, quatro dos cinco fundos mais acompanhados da América Latina tiveram desempenho melhor que o índice de referência dos Estados Unidos, embora cada um tenha reunido uma cesta bem menor de ações. A surpresa não está só nos retornos. Está em quão concentrados esses ganhos foram.
Os números chamam atenção. O iShares MSCI Peru ETF (EPU) retornou 153.3%, o Global X MSCI Colombia ETF (GXG) ganhou 84.6%, o iShares Latin America 40 ETF (ILF) subiu 39.6%, e o Global X Brazil Active ETF (BRAZ) avançou 34.07%. O S&P 500 entregou 65.1% no mesmo período. O único que ficou para trás foi o iShares MSCI Mexico ETF (EWW), com 23.95%.

Por que esses ETFs venceram o S&P 500 com muito menos ativos
A primeira coisa a entender é que esses fundos são construídos de forma bem diferente do S&P 500. O índice dos Estados Unidos tem cerca de 500 nomes, enquanto os ETFs da América Latina nesta reportagem têm em média cerca de 30. O mais amplo, iShares Latin America 40 ETF, é limitado por projeto a 40 posições. Essa diferença importa porque muda a forma como risco e retorno aparecem em uma carteira.
Na prática, esses ETFs se comportam mais como apostas concentradas em país ou setor do que como fundos amplos de mercado. O ETF do Peru tem forte exposição a mineração. O fundo da Colômbia depende de um pequeno grupo de bancos, empresas de energia e serviços públicos. Os resultados do Brasil foram puxados por exportadoras e financeiras. Essa concentração ajudou os fundos a disparar quando seus setores mais fortes avançaram.
O Peru foi o maior vencedor, e as commodities explicam quase tudo
A rentabilidade de 153.3% do iShares MSCI Peru ETF foi impulsionada em grande parte por ouro e cobre. O Peru é um dos principais produtores de cobre do mundo e também está entre os maiores produtores de ouro, então a exposição pesada do ETF a materiais transformou um boom de commodities em ganho de carteira. Southern Copper, Buenaventura e Cerro Verde foram peças centrais desse movimento.
É por isso que o resultado do Peru importa tanto para investidores que acompanham os mercados da América Latina. Ele mostra como um universo acionário estreito pode gerar desempenho acima da média quando o cenário macro ajuda. Também mostra com que rapidez a mesma estrutura pode se inverter se os preços das commodities esfriarem.
Colômbia e Brasil foram histórias de reprecificação, não de lucros limpos
O ganho de 84.6% da Colômbia veio depois de o mercado passar boa parte de 2023 com valuations deprimidos. A incerteza política e o ceticismo em torno da Ecopetrol pesaram sobre os preços, então parte do movimento foi simplesmente uma reprecificação quando as más notícias pararam de piorar. Esse tipo de recuperação pode ser forte, mas também pode ficar restrito a um episódio isolado.
A rentabilidade de 34.07% do Brasil, e o avanço de 39.6% no iShares Latin America 40 ETF, vieram de uma combinação diferente. Juros altos, um real forte e grandes companhias exportadoras como Vale e Petrobras moldaram o resultado. Os grandes bancos também ajudaram. Mais uma vez, os ganhos vieram de um grupo pequeno de nomes fazendo muito do trabalho pesado.
O México ficou para trás, e isso conta outra história
O Mexico Equity & Income Fund rendeu 28.8%, ficando bem atrás dos demais. O México teve de lidar com preocupações sobre a reforma do Judiciário, demanda doméstica mais fraca e expectativas de crescimento mais lentas. O ciclo de cortes do Banxico ajudou as valuations, mas não criou um cenário forte de lucros para o mercado.
Isso faz do México o lembrete mais claro de que o desempenho de um ETF está ligado à economia local, à política local e à composição setorial local. Mesmo quando o peso ajudou os retornos para quem investe em USD, isso não foi suficiente para apagar o peso do crescimento interno mais lento e de uma estrutura de mercado dominada por alguns setores.
O que investidores de varejo na América Latina devem tirar disso
Para os investidores de varejo da América Latina, a lição prática é simples: concentração pode funcionar por um tempo, mas não sai de graça. Esses ETFs superaram o mercado com cerca de um doze avos do número de posições do S&P 500, mas essa mesma concentração também traz oscilações maiores se commodities, juros ou política virarem contra eles.
O acesso, os impostos e a moeda também importam. ETFs domiciliados nos Estados Unidos enfrentam questões de retenção de imposto para muitos investidores estrangeiros, e fundos denominados em USD podem subir ou cair em moeda local dependendo do câmbio. Isso significa que o retorno que você vê na tela pode não ser igual ao retorno na sua própria moeda. Publicamos recentemente uma série completa de artigos detalhando como investimentos em ETFs dos Estados Unidos são tratados em cada país.
Por que isso importa além de uma janela de 2,5 anos
Esses dados não provam que ações latino-americanas sejam uma aposta melhor no longo prazo do que ações dos Estados Unidos. Eles mostram que, nesse intervalo, os fundos concentrados da América Latina entregaram retornos que muitos investidores globais ignoraram enquanto olhavam para o S&P 500 e para as operações ligadas à inteligência artificial.
Para investidores que montam uma carteira global, essa é a verdadeira conclusão. ETFs por país podem funcionar como posições satélite quando você entende o que há dentro deles. Na América Latina, a carteira costuma ser mais estreita do que as pessoas esperam. Isso pode ser uma fonte de risco, e também uma fonte de desempenho acima da média.



