A SpaceX (SPCX) fez algo que poucas empresas privadas conseguem: transformou uma longa história sobre foguetes, satélites e Elon Musk em uma ação pública que os investidores já podem comprar. A empresa estreou na Nasdaq com o ticker SPCX após levantar US$75 bilhões, o maior IPO da história.
Esse título chama atenção por mais do que o recorde. Ele muda quem pode ser dono da empresa, como o mercado avalia o seu futuro e de que forma milhões de investidores de varejo na América Latina vão ouvir falar de tecnologia espacial, acesso à internet e inteligência artificial na mesma conversa.
O que significa um IPO em palavras simples
Um IPO, ou Oferta Pública Inicial, é a primeira vez que uma empresa privada vende ações ao público. Antes desse momento, a propriedade costuma ficar restrita a fundadores, funcionários, fundos de venture capital e grandes instituições. Depois da listagem, qualquer pessoa com uma conta de corretora pode comprar ações no mercado aberto.
A SpaceX vendeu cerca de 555,6 milhões de ações a US$135 cada. A esse preço, o mercado atribuiu à empresa um valuation de aproximadamente US$1,77 trilhão, colocando-a entre as maiores companhias dos Estados Unidos logo no primeiro dia. Para os investidores, esse é o ponto de partida, não a linha de chegada.
Como a SpaceX ganha dinheiro
A SpaceX não é só uma empresa de foguetes. Ela agora opera três negócios que se alimentam entre si. Cada um tem um papel diferente na história de crescimento da companhia, e cada um traz seus próprios riscos.
Foguetes e serviços espaciais são o negócio original. A SpaceX lança satélites e astronautas para a NASA, o governo dos Estados Unidos e clientes comerciais. Seus foguetes Falcon são reutilizáveis, o que reduz os custos de lançamento e dá à empresa uma vantagem importante. Essa divisão gerou cerca de US$4 bilhões em 2025.
Starlink é o verdadeiro motor de receita. O serviço de internet via satélite leva banda larga para lugares onde o cabo ou a fibra tradicional não chegam com facilidade, incluindo áreas rurais do México, Brasil, Chile e Peru. Em 2025, a Starlink respondeu por cerca de US$11,4 bilhões, perto de 61% da receita total da SpaceX, e a base de assinantes subiu de 2,3 milhões em 2023 para mais de 10 milhões no início de 2026.
A inteligência artificial entrou na história depois que a SpaceX absorveu a xAI no início de 2026. A ideia de Musk para o longo prazo é ambiciosa: data centers de IA em órbita, movidos a energia solar e conectados à Terra por meio da Starlink. Isso ainda é uma aposta, não uma linha de negócio comprovada.
Os números que os investidores devem acompanhar
O quadro financeiro é misto, e é aí que o IPO começa a parecer menos uma comemoração e mais um teste. A SpaceX reportou cerca de US$18,7 bilhões em receita em 2025, alta de 33% em relação a 2024. Um crescimento assim é forte em qualquer parâmetro.
Ao mesmo tempo, a empresa registrou um prejuízo líquido de US$4,9 bilhões em 2025. Isso pode surpreender investidores iniciantes que ouvem falar da escala da Starlink e presumem que todo o negócio já está gerando caixa. Não está.
O motivo é o investimento. A Starlink já é lucrativa por conta própria, mas a SpaceX está destinando valores enormes ao Starship, seu foguete gigante de próxima geração, e à infraestrutura de IA. Só no primeiro trimestre de 2026, a SpaceX investiu mais de US$10 bilhões, e a maior parte estava ligada à inteligência artificial.
Em termos simples, o negócio de internet via satélite ajuda a pagar as contas, enquanto foguetes e IA consomem os lucros. O mercado está apostando que essas apostas vão valer muito mais adiante.
Os planos de crescimento da SpaceX são ousados e caros
A SpaceX disse aos investidores que seu mercado total endereçável vale US$28,5 trilhões. Esse número vem da própria estimativa da empresa e inclui espaço, conectividade e inteligência artificial. É um valor gigantesco e serve para justificar um valuation igualmente gigantesco.
O plano de curto prazo gira em torno de três marcos. Primeiro, o Starship deve entrar em operação completa como o maior foguete já construído, projetado para levar cargas mais pesadas a um custo menor e, com o tempo, pessoas até Marte. Segundo, a SpaceX quer começar a implantar satélites de computação de IA por volta de 2028. Terceiro, a Starlink deve continuar crescendo, incluindo o serviço direct-to-cell, que permite que celulares comuns se conectem sem antena ou prato receptor.
Esse roteiro empolga, mas também depende de execução. Uma empresa pode prometer muito em um prospecto. Ela precisa entregar em condições reais, com reguladores, concorrentes, engenheiros e mercados observando cada passo.
O que os céticos dizem sobre a avaliação
Nem todo mundo acha que o preço do IPO faz sentido. Analistas da Morningstar argumentaram que a empresa vale menos do que o mercado pagou, e observam que a SpaceX ainda não gera lucro. Isso é um ponto sério em uma oferta desse tamanho.
Também existe o risco de pessoa-chave. Grande parte do valor da SpaceX depende de Elon Musk, que controla a empresa por meio de ações com direitos de voto especiais. Os investidores não estão comprando só satélites e foguetes. Estão comprando também um estilo de liderança muito específico, com todo o potencial e a incerteza que isso traz.
Por que os investidores latino-americanos deveriam prestar atenção
A SpaceX não é uma história distante para a América Latina. A Starlink já opera na maioria dos países da região e virou uma opção prática de internet em áreas remotas onde o cabo nunca chegou. Em lugares que vão da Amazônia à Patagônia, isso importa no dia a dia, não só na teoria de mercado.
O lado da bolsa também importa. Quando uma empresa entra no mercado público e cresce o suficiente, costuma acabar nos principais índices. Isso significa que muitos fundos indexados e ETFs disponíveis para investidores latino-americanos podem acabar carregando a SpaceX de forma automática, mesmo que o investidor nunca tenha comprado as ações diretamente.
Os principais números em um relance
Estas são as cifras que os investidores provavelmente vão guardar: a SpaceX levantou US$75 bilhões no IPO, fixou o preço das ações em US$135 e entrou no mercado com um valuation de cerca de US$1,77 trilhão. Em 2025, gerou cerca de US$18,7 bilhões em receita e registrou um prejuízo líquido de US$4,9 bilhões. A Starlink passou de 10 milhões de assinantes em março de 2026.
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